Caos social

Invadiram as ruas. Prédios históricos foram depredados, mas deixamos passar. Bancos foram destruídos, mas deixamos passar. Monumentos foram quebrados, mas, também, deixamos passar. Pessoas foram feridas, deixamos passar. Mas, semana passada, um trabalhador, em pleno exercício de sua função, foi morto. Atiraram-lhe um rojão. A foto da sua cabeça em meio ao fogo rodou o país. Não dá mais para deixar passar.

 

Manifestar é um direito. Nada mais democrático do que o exercício de lutar por uma garantia. Se estamos descontentes com algo, podemos manifestar a insatisfação, sair às ruas em busca de mudanças. Liberdade de expressão é direito constitucional. Mas o direito à segurança e, sobretudo, o direito à vida, também o são.

 

As duas últimas semanas no Brasil são um espetáculo gratuito de violência. Alguns podem achar que as cenas vistas mostram o choque entre a liberdade de expressão e o direito à vida. Mas, na verdade, mostram o choque  entre aqueles que deturpam o conceito de liberdade de expressão e o direito à vida. O problema não está em se expressar. O problema está em usá-la como fachada para desordenar e temorizar.

 

É fato que o país possui uma série de deficiências. Educação, saúde, transporte, segurança. Isso levou milhares de cidadãos de bem às ruas para protestar por mais qualidade de vida. Mas uma massa só é massa porque nela não vemos o indivíduo. E havia muitos indivíduos disfarçados de cidadãos de bens cujo único intuito era vilipendiar. Diante da insegurança e da violência, o medo dos cidadãos de bem acabou por provocar suas retiradas. Os protestos deixaram de ser protestos para serem verdadeiros atos de degradação. A passividade dos rostos de protestantes de bem cedeu lugar a pessoas mascaradas, cujas muitas ações são incompatíveis com exercício da cidadania.

 

Um trabalhador que se ocupa o dia inteiro para que possa manter seu sustento, certamente, não irá às ruas mascarado com rojões. Seu dinheiro tem destino certo. Não há sobra de tempo e nem de dinheiro para comprar armamentos com a finalidade de matar alguém. Mas, se só compra algo quem tem dinheiro e se quem tem dinheiro o tem porque trabalha, a quem podemos atribuir a autoria da compra dos armamentos? A resposta mais plausível é: alguém financia.  Afinal, o dinheiro vem de algum lugar.

 

Seja no Rio, São Paulo ou em Brasília, todo protesto requer verba para organização. Mobilizar centenas de pessoas em direção a uma cidade requer recursos. Ônibus, alimentação. Tudo é gasto. É necessário dinheiro para cruzar um estado. Se este financiamento fosse legal, tudo bem! O problema é que, pelo visto, os patrocinados mais embrutecem do que civilizam. Ao invés de contribuir para uma sociedade justa, promovem a violência, o caos e a morte. Problemas requerem soluções. Soluções demandam debates, mas debates prescindem de pau, pedra e porrete. Quem vai armado, não quer conversa. Quem quer sentar e conversar entra pela porta. Não precisa incendiar ônibus, estilhaçar vidraças ou atirar rojões.

 

Policiais feridos em estado grave, morte de cinegrafista. Dias de caos. Pra população, é a morte ou a lesão a um homem, a um

trabalhador. Mas somos sempre mais que isso. Somos filhos, somos pais, somos irmãos. Quem quer perder alguém querido em meio a um caos social? O medo que este caos se alastre gera terror. Não à toa, o debate sobre a Lei Antiterror, Projeto de Lei nº 499, ganhou visibilidade. A Constituição diz que terrorismo é inafiançável, mas isso de pouco adianta, se não temos sequer um conceito legal de terrorismo. O que surpreende é que, mesmo diante do caos, há quem rejeite a legislação.

 

O cidadão de bem que se dispuser a ler o projeto de lei não terá receio.  Cidadãos de bem não pretendem infundir pânico, nem usar armas químicas, de fogo ou radiotivas para promover destruição em massa ou infundir terror a um bem ou a um serviço social. Afinal, cidadãos de bem sabem que podem fazer militância política e privada, que podem se manifestar legitimamente, que podem fazer passeatas, algo tão comum em todas as cidades. Mas não temem a lei porque sabem, principalmente, que jamais serão confundidos com aqueles que saem às ruas com a finalidade única de depredar o que é público e de vilipendiar o social. Eis a diferença!

 

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: