Do boato ao ato injusto

O que é um boato? “É ente invisível e impalpável, que fala como um homem, está em toda a parte e em nenhuma, que ninguém vê de onde surge, nem onde se esconde, que traz consigo a célebre lanterna dos contos arábicos, a favor da qual se avantaja em poder e prestígio, a tudo o que é prestigioso e poderoso.” Não há qualquer erro na definição de Machado de Assis, mas, em alguns, o boato pode tomar contornos ainda mais vis. Para Fabiane de Jesus, 33 anos de idade, dona de casa e mãe de família, significou o extremo. Foi sua causa morte.

 

Fabiane foi amarrada, espancada e arrastada por mais de cem pessoas no Guarujá. Foi internada em estado gravíssimo, mas faleceu vítima do linchamento. O motivo do crime foi um boato, espalhado na internet, de que Fabiane seria a mulher que sequestrava crianças para fazer magia negra.

 

Não há dúvidas de que a internet é uma ferramenta da qual o homem moderno não faz questão de abrir mão. Trouxe celeridade a tudo. Imprimiu agilidade ao mundo moderno, tanto que é comum se associar modernidade à tecnologia e à maximização do tempo. Mas o  problema é que a internet não é um mundo paralelo. Quem lê as páginas virtuais é alguém tão real quanto eu ou você. O que se diz na virtualidade é escrito, lido, pensado e executado por pessoas, sejam elas bem ou mal intencionadas. O caso de Fabiane é a prova desta má intenção.

 

O retrato falado de uma mulher que sequestrava crianças no Guarujá foi publicado em um site. O site não informa quem seria ela, mas isto não o exime de um erro grave: o de não checar a veracidade de um fato. Quem publica algo deve verificar se aquilo é verdade ou não. Consciente do erro, o administrador retirou o retrato falado do ar poucas horas depois da publicação e depois desmentiu a historia de que havia sequestradora de crianças. Mas como se está falando de internet e, portanto, de rapidez, o retrato falado de alguém tão parecido com Fabiane já tinha mais de 175 compartilhamentos.

 

A notícia e imagem da seqüestradora tiveram muitos compartilhamentos. Já a notícia que desmentia a história e informava que não havia nenhum registro na delegacia sobre seqüestros de crianças teve bem menos compartilhamentos. Isto mostra a deturpação dos valores. Há mais interesse em propagar a mentira do que esclarecer a verdade.

 

O fato é que Fabiane morreu. Culpar quem? Argumentam que a agressão contra Fabiane não começou na página virtual, mas, sim, na rua. Foi abordada por moradores que afirmaram que ela era a mulher do retrato falado. Assim, quem viu o retrato falado e julgou errado é que seriam os culpados. Mas se não fosse a internet e a imagem ali publicada, seu rosto não teria se tornado conhecido. Pior do que a velocidade do mal, é a constatação da perda da inocência. Há algo pior do que ver uma bicicleta passar pela cabeça de um ser humano? Sim. Pior que isso é ver crianças, que sequer ainda possuem noção de justiça, acharem que possuem o direito de chutar alguém.

 

Nada restituirá a vida de Fabiane, mas sua morte serviu de alerta para que víssemos a necessidade de atentar para a veracidade daquilo que cai na rede virtual. Se o mal nasce quando a mentira é proferida, o melhor a fazer é punir não só quem a linchou em termos físico, mas, também, quem a linchou moralmente.  Em um mundo onde a palavra de ordem é modernidade, o caso de Fabiane mostra que, em muitos pontos, ainda estamos na idade da pedra. Um boato ganha proporções e uma turba, indiferente ao que é justiça, chama pra si o direito de sentenciar alguém, sem qualquer defesa.

 

Como disse Machado de Assis, o boato é um ente invisível que fala como um homem. No caso de Fabiane, o boato foi um homem violento e injusto, que levado por uma informação errada, achou-se no direito de bater em alguém até a morte. A diferença do homem de Machado de Assis para o do caso de Fabiane foi a velocidade com que este homem foi alimentado. Com a ajuda da internet, um linchamento se potencializou. Bastaram poucos dias para que uma calúnia na internet deste causa à morte de alguém. Tempo suficiente para propagar uma mentira e fazer injustiça. Mas pouco tempo para desmentir um boato e agir com justiça.

 

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