Por um Estado menor

A Copa começou. É sempre uma emoção assistir aos jogos do Brasil. É algo até cultural. As bandeirinhas nas ruas, o chão que vira uma imensa tela horizontal com as cores da bandeira. O brasileiro, de um modo geral, cresce vendo a família se reunir a cada Copa para ver a seleção jogar. Só que ver o Brasil jogar não diminui a insatisfação com os gastos que sediar o campeonato impôs ao país. O brasileiro não torce para a seleção perder. Apenas adquiriu a consciência daquilo que é prioridade. Quando pesamos as prioridades, fica fácil ver que não tínhamos condições de arcar com uma festa tão cara. Nós nos contentamos em participar dela. Não precisávamos ser os anfitriões.

Alguns vídeos mostram duas pessoas que tentaram entrar com uma camisa que pedia “educação padrão FIFA” e “saúde padrão FIFA”. Foram barradas. Após irem à administração, conseguiram entrar, mas tiveram que vestir a camisa do lado avesso, a fim de tornar ilegível o que nela estava escrito. No depoimento das pessoas, o argumento era válido. Não pediam nada ofensivo. Ao contrário, tratava-se de um elogio à qualidade do evento. Mas, com sutileza, mostrava a ausência de qualidade em serviços básicos a qualquer sociedade. Sem dúvida, muito elegante a forma que as duas pessoas encontraram de protestar. Mas bem diferente foi a postura dos que impediram sua entrada. Afinal, nada mais deselegante do que tolher a liberdade de expressão.

As duas pessoas podem ter sido silenciadas. Tantas outras também não devem ter conseguido expressar sua insatisfação. Mas é difícil tentar se calar após cada novo argumento justificando gastos com aquilo que não era prioridade.

Há poucos dias, o governo informou que os gastos com a Copa foram irrisórios diante dos gastos com a saúde e educação. O governo pode até ter destinado 500 bilhões para a saúde. Mas em um país onde política e corrupção parecem caminhar juntas, é difícil acreditar que todo este dinheiro tenha se transformado em hospitais e medicamentos. Mas vamos trabalhar com a hipótese de que a política não é motivo de ascensão social no Brasil. Se foi destinado mais de meio trilhão para a saúde e ainda há milhares morrendo no chão de hospitais por falta de leito e atendimento, é porque o dinheiro ainda não foi suficiente. Se não foi, o trocado gasto com a copa certamente faria falta.

Um governo que diz gastar uma quantia exorbitante com saúde. Uma sociedade que não vê esse dinheiro se transformar em direito acessível e, portanto, em garantias e consequente cidadania. Um Estado cada vez maior. Uma satisfação cada vez menor. Quando vemos dinheiro público andar em direção oposta a da satisfação pública é sinal de que os rumos tomados pelo país não são, de fato, os mais plausíveis. 

Se o governo não consegue arcar com seus custos, é porque deve ser a hora de olhar o mundo ao redor e tomar o “mundo” que deu certo como exemplo. Nenhum país de economia desenvolvida carrega nas costas o peso de um estado imenso. É mais que hora de diminuir um Estado para que se possa aumentar a garantia de direitos. A privatização é uma boa idéia para tornar o estado menor. Talvez este 

seja um dos motivos que justifiquem a garantia e acesso a estes direitos. Um estado menor não significa menos educação e nem menos saúde. Significa somente a possibilidade de maior cidadania.

Segunda tem jogo. É bom vibrar quando o Brasil faz gol. Crescemos fazendo isso. Sentimos orgulho em ser o país do futebol. Mas crescemos também cercado de mazelas sociais. Crescemos ouvindo que o Brasil era um país pobre. Crescemos vendo crianças fazerem malabarismos nos sinais. Entendemo-nos adultos assistindo a matérias onde doentes morriam nas filas de hospitais públicos. Disso, não temos orgulho algum. Ter crescido neste contexto nos fez entender que é legal vibrar com um campeonato a cada quatro anos. Mas nos fez entender, principalmente, que entre um campeonato e outro se passam mais de mil dias de uma realidade nada vitoriosa para milhões de brasileiros.   

 

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