Um homem só

É difícil separar a vida privada de um sujeito de sua vida pública. A ligação é forte. Mas é fato, também, que quando o homem público se dá o devido respeito, é mais fácil preservar o lado privado do lado público.

Em uma entrevista ao jornalista Roberto D’avila, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ressaltou a diferença entre respeito e popularidade. Para ele, respeito se conquista com atitudes, com o modo de agir. Já a popularidade, esta é volátil. Sobe e desce como ações da bolsa de valores. Respeito, portanto, demanda tempo. É algo que se conquista aos poucos e não se perde no futuro. A popularidade, por sua vez, é algo presente e oscilante.

Se o respeito é algo conquistado, é, por certo, fundamental quando o assunto é idéias e propostas. Em uma democracia, somos seres representados. Como tais, queremos propostas políticas de pessoas que se deram respeito. Afinal, é difícil esperar algo respeitoso de quem não teve respeito pelo dinheiro público. É por isso que não se pode ignorar o histórico de ninguém.

O Governador Simão Jatene, professor da Universidade Federal do Pará, em recente entrevista, falou que “o homem político deve servir ao público, não se servir do público”. Poucas frases soaram tão apropriadas. É justamente isso que se espera de um político respeitado. Espera-se ética e competência. Mas daquele que não conquistou o respeito, o que esperar? Infelizmente, nada de muito positivo.

O respeito ao público deveria ser palavra de ordem, mas é com pesar que a falta de respeito é vista todos os dias. Muitos insistem em ignorar que aquilo que é público é de todos, e não patrimônio particular. O político não é o dono da coisa pública. É somente seu gestor.

Com tantos políticos que não diferenciam o ato de servir ao público do de se servir do público, tornou-se fundamental saber quem é o homem por traz do político. É impossível debater propostas e programas políticos sem conhecer a pessoa do candidato. Se somos respeitosos em outras áreas da vida, também seremos na política. Por outro lado, o que esperar daquele que nunca se deu ao respeito? “Cesteiro que faz um, faz um cento”. É fundamental, portanto, saber se o político possui qualidades pra ocupar um cargo público legislativo e, principalmente, executivo.

Não há como menosprezar a moral de cada um. Ética e respeito podem ser algo real. E devem ser levados em consideração. Não há como ignorar um passado pregresso. O homem é a somatória de seus atos. Se há um histórico de atos desonestos, será difícil acreditar que daquele homem poderia se esperar honestidade. É por isso que é tão importante olhar o histórico dos políticos. Um bom exemplo disso foi um dos debates mais memoráveis da política brasileira.

Era 1998. Mário Covas, político sério e comprometido com a população, disputava eleição com o ex- governador de São Paulo, Paulo Maluf, de conduta muito similar a daquele que dispensa apresentações em nosso Estado. Covas, que perdia com uma diferença significativa, resolveu abandonar as orientações de seus marqueteiros e, ao invés de focar seu debate em ações administrativas, optou por apresentar à população o verdadeiro Maluf. Negou-se a falar de propostas. Afinal, não há como crer no que propõe uma pessoa condenada por desvio de dinheiro e procurada pela polícia internacional?

Covas teve vitória nas urnas. Mas quem ganhou mesmo foi a população. Ganhou não só a chance de ser melhor representada, mas a consciência de que um sujeito desonesto jamais será um político honesto. Ganhou, sobretudo, a percepção de que aquilo que somos na política, jamais será muito diferente do que somos de verdade. 

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